A CBF disponibilizou nesta semana, em seu site oficial, a versão integral do Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira. O documento que consolida as bases do modelo nacional de Fair Play Financeiro brasileiro e que havia sido apresentado ao público na última edição do CBF Academy Summit em novembro.
Junto ao material, a entidade divulgou um guia explicativo que busca apoiar dirigentes, conselheiros, profissionais da área e demais interessados no entendimento das novas diretrizes. O manual reúne orientações em linguagem direta para facilitar a compreensão das regras e do funcionamento do sistema.
A publicação marca uma etapa relevante dentro da tentativa de reorganização econômica dos clubes, já que o modelo proposto procura estabelecer padrões uniformes de acompanhamento ao longo da temporada e promover maior controle sobre receitas e despesas.
Para orientar essa transição, o documento destrincha cada componente do regulamento e apresenta explicações que partem de duas perguntas centrais, relacionadas ao motivo de cada regra existir e à sua aplicação cotidiana. A intenção é aproximar o processo de gestão das práticas de governança adotadas em outros mercados e conectar os mecanismos de controle da CBF à lógica já consolidada nas principais ligas.
A entidade reconhece que a implantação de um sistema de vigilância financeira demanda ajustes e tempo de adaptação, por isso elaborou o guia como ferramenta de apoio aos clubes ao longo dessa fase inicial. As regras passarão a valer em 1º de janeiro de 2026 e terão três pontos fixos de verificação por temporada. O período de implementação seguirá até 2030, permitindo que as instituições se adaptem de forma gradual às exigências.
Como vai funcionar o Fair Play Financeiro no futebol brasileiro?
Um dos pilares do processo de monitoramento envolve o registro de atletas, que dependerá do envio de todos os contratos para a plataforma da CBF antes da publicação no Boletim Informativo Diário. As avaliações ocorrerão em 31 de março, 31 de julho e 30 de novembro, alinhando o controle ao calendário competitivo e incorporando a fiscalização ao fluxo diário de operações.
Para dar suporte a esse acompanhamento contínuo, a entidade utilizará uma versão nacional do Domestic Transfer Matching System, sistema inspirado no modelo da Fifa e voltado ao acompanhamento de negociações e compromissos financeiros entre clubes. A ferramenta também cruzará informações com bases públicas para verificar dívidas diversas, o que amplia o alcance da supervisão.
O conjunto de regras foi organizado em quatro pilares que orientam o acompanhamento financeiro dos clubes. O primeiro trata da verificação de possíveis atrasos com outras instituições, funcionários ou órgãos públicos, enquanto o segundo analisa a capacidade de operação ao comparar receitas e despesas recorrentes. O terceiro pilar observa o equilíbrio entre investimento no elenco e o porte econômico da instituição, e o quarto limita o endividamento de curto prazo para assegurar liquidez mínima e evitar riscos estruturais.
Os times terão até 2030, considerando os números contábeis de 2029, para ajustar dívidas de curto prazo a um limite que não ultrapasse 40% do faturamento anual, prazo que chegou a ser debatido, mas não foi ampliado. A inclusão de dados na plataforma será obrigatória para que atletas sejam liberados no BID, enquanto o sistema internacional de transferências, integrado ao modelo nacional, permitirá validar pagamentos relacionados a negociações.
Compromissos firmados a partir de 1º de janeiro de 2026 serão acompanhados imediatamente, e valores anteriores deverão ser regularizados até o fim de novembro do ano seguinte. O regulamento prevê um conjunto progressivo de sanções, como advertências, multas, retenção de receitas, restrição a contratações, rebaixamento e, em casos extremos, perda de licenças.
O acompanhamento será iniciado quando houver prejuízo no exercício anual, considerando os últimos três anos e com limites específicos: na Série A, déficit máximo de R$ 30 milhões ou 2,5% da receita; na Série B, R$ 10 milhões ou também 2,5%. Além disso, o gasto com o elenco não poderá superar 70% do faturamento na primeira divisão e 80% na segunda, cálculo que engloba salários, encargos, direitos de imagem e amortizações.
As discussões que definiram o sistema ocorreram entre julho e novembro, reunindo representantes das Séries A e B, federações e outros agentes, que contribuíram para ajustes técnicos ao longo do processo.
Ao final da consulta pública, a CBF informou que cerca de 70% dos clubes participaram ativamente das discussões, e que 79% das sugestões foram incorporadas ao texto final. Temas como padronização contábil, tratamento da multipropriedade, definição de parâmetros de alavancagem e regularização de pendências financeiras tiveram grande volume de contribuições. Houve também pedidos para renegociação de dívidas tributárias, ponto que não avançou nesta fase inicial.
A entidade afirma que a consolidação do Sistema de Sustentabilidade Financeira representa um compromisso de longo prazo com regras claras e alinhamento institucional. O objetivo é contribuir para a construção de um ambiente de maior previsibilidade para as próximas gerações do futebol brasileiro.




0 Comentários